História da Farmácia no Mundo: As sociedades urbanas arcaicas

 

As sociedades urbanas arcaicas

As primeiras sociedades com escrita surgem no Crescente Fértil e no vale do Indo, adquirindo grande desenvolvimento a partir do 4º milénio a.C. O Crescente Fértil, cujas civilizações são as que têm maior importância para a história da farmácia ocidental, é constituído pelo Egipto, pela Mesopotâmia e pelo corredor sírio-palestiniano, espaços dominados, respetivamente, pelo vale do Nilo, pela planície do Tigre e do Eufrates e pela faixa mediterrânica que os liga entre si. O Egipto, unificado c. 3000 a.C., passou sucessivamente pelo Antigo Império (2850-2052 a.C.) com capital em Mênfis, pelo Médio Império (2052-1570 a.C.) com capital em Tebas e pelo Novo Império (1570-715 a.C.) com a capital primeiro em Tebas e depois em Sais. A Mesopotâmia foi dominada pelos Sumérios (3000-1900 a.C.), pelos Babilónios (1900-1200 a.C.) e pelos Assírios (1200-612 a.C.). O corredor sírio-palestiniano é a região onde se instalaram os Fenícios e os Hebreus.

As mais antigas fontes escritas médico-farmacêuticas são provenientes precisamente das civilizações da Mesopotâmia e Egipto. Na Mesopotâmia são constituídas por tabuinhas de argila gravadas com um estilete em escrita cuneiforme. Esta técnica permitiu que estes documentos tivessem sobrevivido até à atualidade, como aconteceu com as bibliotecas de Hammurabi (c. 1700 a.C.) em Mari e de Assurbanípal (c. 630 a.C.) em Nínive. O mais antigo documento farmacêutico conhecido é uma tabuinha suméria executada por volta do último quartel do terceiro milénio, contendo quinze receitas medicinais e descoberta em Nippur. Além deste formulário apenas se conhece mais uma pequena tábua com uma única receita do período sumério, mas em contrapartida são conhecidas centenas de tabuinhas médicas datadas do primeiro milénio. Entre 1974 e 1975 foi descoberta a biblioteca do palácio real de Ebla (Síria) com cerca de 20.000 tabuinhas de argila, muitas das quais com informação sobre os medicamentos utilizados na época. No Egipto, além das inscrições referentes à medicina existentes em vários monumentos, as fontes escritas são principalmente papiros, um suporte constituído por fibras de papiro maceradas e aglutinadas até constituírem folhas compridas que se conservavam enroladas e eram escritas com a ponta de uma cana. O carácter seco das areias do deserto permitiu que estas fontes resistissem aos anos. O papiro mais importante para a História da Farmácia é o Papiro de Ebers, mas outros existem com interesse farmacêutico como o de Hearst, o de Londres e o de Berlim, entre outros. O Papiro de Ebers, do nome de Georg Ebers (1837-1898) que primeiro o estudou em 1875, data de c. 1550 a.C., tem mais de 20 metros de comprimento e inclui referências a mais de 7000 substâncias medicinais incluídas em mais de 800 fórmulas. Contrariamente ao que acontece nas fontes mesopotâmicas, as fórmulas egípcias, como as contidas neste papiro, são quantitativas. Este papiro, em escrita hierática, conserva-se actualmente na Universitats Bibliothek de Leipzig.

 

Saúde e magia na Mesopotâmia

Os conceitos terapêuticos assírio-babilónicos baseavam-se na crença de que todos os fenómenos, tanto os terrenos como os cósmicos, se encontravam estreitamente unidos e subordinados à vontade dos deuses. Esta visão traduziu-se na importância dada ao estudo dos movimentos celestes como forma de predizer o futuro, nomeadamente no que respeita à saúde, e no carácter teúrgico da medicina. Toda a doença e cura se explicavam através de uma complexa relação entre deuses, deuses protetores e demónios.

Nas crenças sumérias e assírio-babilónicas, a doença é um mal causado por espíritos malignos, os demónios, aproveitando a falta de proteção dos deuses. O termo Shêrtu, significa igualmente “pecado”, “cólera divina” e “castigo”. A doença é causada, ou por ação direta dos deuses, ou por posse por demónio. Este conceito deu origem ao duplo significado do termo grego pharmakon, do qual derivou posteriormente fármaco e farmácia, e que tinha simultaneamente o sentido de medicamento e veneno, devido à aceção inicial de feitiço. Estes conceitos influenciaram as ideias, tanto ao nível popular como erudito, sobre patologia durante muitos séculos, nomeadamente durante a Idade Média no mundo cristão e persistiram sob várias formas até aos nossos dias.

A doença pode ter lugar quando os deuses retiram a proteção, devido à magia negra ou, na Suméria, simplesmente em resultado do destino. Várias causas naturais são conhecidas, mas consideradas acessórias. Os espíritos malignos causadores de doenças, os Edimmu ou Ekimmu, são os espíritos dos mortos que não conseguiram descansar, os mortos por enterrar, a que não se dedicavam oferendas ou que não tinham cumprido a sua missão na terra, os Lilû, Lilîtinou e Ardatlilî (resultantes da união entre demónios e humanos) ou outros deuses inferiores ou diabos. Entre estes contam-se Nergal, causador da peste, Ashakku, da febre, Ti’u – das cefaleias ou Sualu, responsável pelas doenças do peito.

Uma visão que gerava práticas terapêuticas específicas

Desta visão resultavam determinadas práticas de diagnóstico e terapêuticas. O objetivo do diagnóstico consistia em saber que pecado o doente cometera, que demónio se apoderara do seu corpo e quais os propósitos dos deuses, por técnicas de adivinhação (piromancia, hepatoscopia, oniromancia, presságios a partir de nascimentos anormais de homens e animais e astrologia), encaradas como forma pelas quais os deuses manifestavam a sua vontade. A terapêutica visava a reconciliação com os deuses, através da oração e de sacrifícios, assim como a expulsão dos demónios, recorrendo a encantamentos e purificações por magia. Os deuses a quem os povos mesopotâmicos se dirigiam eram Ea (deus da sabedoria e da arte mágica, criador da vegetação e dos seres humanos) e Marduk (deus tutelar da Babilónia, senhor dos deuses. Deus da luz, do exorcismo, da arte de curar e da sabedoria), os deuses da doença e de doenças específicas e os deuses pessoais ou deuses protetores. As preces eram dirigidas a deuses intermediários que intercediam junto dos grandes no tribunal dos deuses. Por mandato de Ea, os sacerdotes representavam o doente perante este tribunal. Os sacrifícios podiam ser alimentícios (dos deuses), expiatórios (destruição de bens) e substitutivos (do homem). Os encantamentos e purificações por magia eram dirigidos ao tribunal dos deuses ou diretamente contra os demónios, podendo ser profiláticos, com o recurso a amuletos.

Uma das dificuldades deste sistema de crenças é a que se encontra em textos mesopotâmicos que tratam do tema do justo doente, o que adoeceu sem pecar, como a tabuinha com a prece do doente em coma, a quem a ‘enfermidade de Alu’ cobriu o ‘corpo como um manto’ e que, dado por morto, foi roubado dos seus bens e sujeito à chacota dos seus inimigos. Porque é que os deuses o desampararam? Para o seu autor, tão somente porque os juízos dos deuses são por vezes insondáveis:

Alguns aspetos da mitologia mesopotâmica e egípcia relacionados com a saúde surgem igualmente na mitologia e na medicina greco-romanas. Assim, a utilização da serpente como símbolo médico-farmacêutico teve a sua origem na lenda do herói Gilgamesh, a qual parece basear-se na figura de um rei sumério do 3º milénio. Segundo a lenda, em um dos muitos episódios das suas aventuras, Gilgamesh mergulha até ao fundo dos mares para colher a planta da eterna juventude. Ao regressar, num momento de distração, uma serpente rouba-lhe a planta e ao engoli-la rejuvenesce mudando a sua pele. Outra figura mitológica com origem num ser real é Imhotep, médico egípcio de grande renome, primeiro-ministro do faraó Zoser (c. 2700-2650 a.C.) e arquiteto da pirâmide de Sakkara e do templo de Edfu. Deificado cerca de 2.500 anos após a sua morte, tornou-se o principal deus egípcio da medicina no período helenístico e foi considerado pelos gregos como uma representação de Asclépio.

o.

Panel Heading

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat. Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur. Excepteur sint occaecat cupidatat non proident, sunt in culpa qui.